quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Oração aos Ancestrais

Esta é uma oração simples, pode ser proferida no dia a dia, mas pode também ser incluída em celebrações e libações:

de Carl Larss

Oração aos Ancestrais

Ó, Ancestrais, por vós clamamos!
Dignos e sábios, valorosos e amorosos,
Pais do nosso povo.
Pela vida e o sangue que nos legaram,
Viemos louvá-los.

(Libação, se desejar)

Que nosso caminho seja de honra,
E o horizonte de realizações.
Que nossa família permaneça sã e salva,
Com a vossa bênção e proteção, agora e sempre.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Ordem, Caos e Ética na Crença Céltica - pt. 2

A Batalha entre os Deuses e os Titãs, de Joachim Wtewael
   
      Como dizia na primeira parte deste texto, O Univero é compostode Ordem e Caos, beleza e movimento, mudança, renovação. Para Serith "O caos é perigoso. Ameaça sobrepor-se ao Cosmos. Nós precisamos do Caos; de outra forma, nosso mundo se parte e morre. Indo-Europeus não gostam do Caos. De fato, rituais Indo-Europeus destinam-se a lidar com ele. Contudo, não lidam com o Caos negando-o. O Cosmos, afinal, não o nega. De fato, assim como o Cosmos, os rituais Indo-Europeus integram o Caos ao Cosmos. Um ritual Indo-Europeu portanto se dá no ponto em que a Fonte e a Árvore se encontram. Esta é uma das formas pela qual a Cosmologia afeta a religião." Ou seja, os rituais indo-europeus se dão no ponto de encontro entre Caos e Ordem, entre Fonte e Árvore, entre o visível e o invisível - exemplo destes encontros são os Equinócios, o alinhamento astronômico da harmonia, e os Solstícios, alinhamentos astronômicos díspares.

      No caso da Cultura Celta, dá-se quando o Tempo encontra o Não-tempo. Quando nosso mundo encontra o Outro-mundo. Samhain é o fim e reinício do Ano, do Tempo. Neste momento o Tempo se desfaz e com ele as fronteiras entre os mundos. A Ordem e o Caos, o visível e o invisível se encontram, assim como os vivos e os mortos. Toda sorte de ser vivente no Cosmos: Sîdh, monstros e mortos, pode caminhar sobre a terra e visitar os mortais. Inicia-se o período de predomínio do Caos, a escuridão e o frio, e é uma quarentena depois, em Imbolc que celebra-se a visita de Brigid, exilada da Irlanda junto a seu esposo destronado, Bres, a quem mantém-se fiel. Já em Beltaine, oposto ao Samhain, a Ordem e o Caos voltam a se encontrar, mas aqui dá-se a vitória da Ordem sobre o Caos, com a entrada da luz e calor que avança para o verão. O ponto exato da vitória da Ordem sobre o Caos se dá em Lughnassadh quando a vitória de Lugh e os demais deuses sobre os invasores, Fomores (disformes e exploradores) toma lugar, após a Segunda Batalha de Magh Tuireadh, que ocorre ao longo do verão. Se o leitor chegou a este ponto e está se perguntando porque todos os exemplos da Mitologia Celta que cito são de heróis e reis, já vai entender:

      Serith segue para o caso indo-iraniano do Zoroastrismo, cuja concepção central está na batalha cósmica entre Ahura Mazda, a Ordem e Beleza, e Angra Manyu, Caos e Mentira: "A vontade de Ahura Mazda é que tudo esteja em bela harmonia, em ordem, que o zoroastrismo chama de Asha. A humanidade não é capaz de agir apenas com beleza, de acordo com esta ordem, mas através das ações, tanto morais quanto rituais, podemos fortalecer Asha no universo e ajudar nesta batalha." Já citei acima como a Segunda Batalha de Magh Tuireadh representa na Cultura Celta a vitória da Ordem sobre o Caos, uma leitura atenta desta passagem da Mitolgoia Gaélica mostra como foram aí definidos padrões fundamentais para a Ordem no mundo, tais como a tomada da agricultura pelos deuses e a definição das estações e colheitas que se dão uma vez ao ano. 

      De volta às raízes i.e. Serith nos diz "Em grego nós encontramos a palavra 'aristos', 'o melhor'; 'harmonia', 'harmonia'; e 'ararisko', 'encaixar, adaptar, harmonizar'. O armênio nos dá 'arnel', 'fazer'. Todas estas palavras  asha, rta, aristos, harmonia, ararisko, e arnel, assim como 'aritmética', 'arte, 'rito', remontam ao Proto-Indo-Europeu H²er-* 'encaixar de acordo com o padrão apropriado'; e o padrão apropriado é aquele que é belo e organizado. A palavra Proto-Indo-Eruopéia para este padrão é Xártus (H²ertus)**." [...] Sobre Rta, Serith nos diz que é o contrabalanço recíproco, a flutuação de forças que por seu movimento encontram o equilíbrio. [...] Ainda que todas as nossas ações tomem lugar dentro do Xártus, e embora deva ser nosso objetivo agir de acordo com o  Xártus, mesmo as ações que não estão em equilíbrio com este são de alguma forma semeadas e incorporadas." 

      Por isso toda a vivência religiosa Indo-Européia é uma tentativa de viver de acordo com este equilíbrio entre a Ordem e o Caos. Estar integrado ao Cosmos é ter consciência de que não se pode agir sempre de forma bela e organizada - nem mesmo os deuses o podem, a mitologia i.e. está repleta de ações injustas, mentiras e egoísmos que por vezes os próprios deuses cometem, e geram reações no universo -, mas esforçar-se por fazê-lo ao máximo, tomando partido do Cosmos na eterna batalha e eterna dança entre Ordem e Caos.

      Nós do Politeísmo Celta devemos conhecer nossa Mitologia, lê-la de forma crítica, procurar as ações belas e validá-las, procurar as danosas e nos esforçarmos para não repeti-las, buscando assim uma vida virtuosa. É por isso também que devemos estar em contato com os pontos de encontro entre Ordem e Caos, visível e invisível, nos locais onde os mundos se encontram: a árvore sagrada, a clareira na floresta, a fonte, a praia, a ilha, a montanha, a rocha que desponta na terra. Devemos procurar estes nossos templos, e devemos celebrar nossas estações nos pontos de encontros, integrando-nos ao Cosmos, ao pilar, sustentando o Universo e tomando consciência dos seus movimentos em nós. Devemos cultivar a beleza e a organização, a centralização e a harmonia em nossos corpos, nossa mente, nossos espíritos, nossas ações, nossa arte e técnica, e tudo o mais o que produzimos.

      Às vezes teremos de dar voz ao Caos, mas é lícito se for no intuito de restabelecer uma Ordem ameaçada pela estagnação. Só não se pode esquecer que, assim como todo movimento do Caos gera uma reação, uma reciprocidade do Cosmos, também nossas ações danosas a nós mesmos e a outros terão reações, e devemos estar prontos a nos responsabilizarmos por elas. Assim a reciprocidade se torna também parte fundamental da ética Indo-Européia. Aquele que busca viver como um indo-europeu sempre devolve um presente por um presente, respeito por respeito, hospitalidades por hospitalidade, e, ao contrário do que pregam outros credos, uma pancada por outro pancada. Indo-europeus não dão a outra face. Fazê-lo seria como quebrar a ordem cósmica, seria romper o movimento de reciprocidade que equilibra, que incorpora e dá Ordem, aos fluxos do Caos.

*, **  A linguística posiciona o 2 em baixo, e não em cima como está no texto (por puro desconhecimento de como usar o teclado).

domingo, 8 de janeiro de 2017

Ordem, Caos e Ética na Crença Céltica - pt. 1

      Um dos meus autores favoritos dentro do movimento reconstrucionista e politeísta é Ceisiwr Serith, e um dos motivos para eu ter ingressado na ADF também. O Serith é reconstrucionista proto-indo-europeu (sim, existe), na verdade, ele criou o Reconstrucionismo Proto-Indo-Erupeu. Passou uns 30 anos estudando arqueologia, linguística, história, e as culturas que fazem parte do aglomerado que as Ciências Humanas convencionaram chamar de Indo-Europeus, até que escreveu um dos melhores livros sobre politeísmo reconstrucionista: Deep Ancestors - Practicing the Religion of the Proto-Indo-European, publicado pela editora da ADF em 2007. Uma obra que recomendo para politeístas de qualquer vertente indo-européia, e na qual o autor apresenta o RPIE e como praticá-lo. Mas este meu texto aqui não é uma resenha da obra, e sim uma tentativa de diálogo entre o capítulo 4 'The Lay of the Land', com a crença céltica nos dias de hoje. 

      Neste capítulo o autor passeia por vários exemplos de culturas i.e. para explicar a noção de Ordem, Caos e Ética que um politeísta i.e. precisa compreender, e inicia com a seguinte afirmação: "Um Cosmos é ordenado por definição, então se dizemos que os proto-indo-europeus conceberam um Cosmos, então estamos dizendo que havia uma ordem cósmica. A forma como esta ordem é expressa em uma cultura é pela sua Cosmologia. Entender a Cosmologia de uma religião é vital para entender tudo o mais sobre ela. [...] a cosmologia descreve um universo, mas não qualquer universo - um Cosmos é um universo ordenado e belo (a palavra 'cosmético' partilha da mesma raíz de 'cosmos'). Isto é especialmente comum entre indo-europeus, que assumem não apenas que existe uma ordem para as coisas e que o universo é belo, mas que é a ordem que torna o universo belo."  

      Vejo a ideia de beleza e ordem expressa na Cultura Celta nos mitos que ilustram a beleza dos governantes como primados para a manutenção de reinos ordenados, o que na ideologia céltica eram reinos seguros, férteis e prósperos, governados por reis generosos e bravos*. Vemos também exemplos de reis que por terem se mostrado tirânicos sofreram deformações faciais e vieram a perder o trono, como Aillil tendo sua orelha decepada, seu reino desfeito e seus filhos mortos pela Deusa da Soberania Áine, após violentá-la. A arqueologia nos mostra como a importância da ordem cósmica entre reino e natureza estavam entrelaçadas quando nos mostra o sacrifício de reis para restabelecer esta mesma ordem**. Temos, contudo, o exemplo de Bres que mostra que, apesar de bravo e belo, a beleza não é garantia de um bom reinado,  apenas um pré-requisito  Bres foi escolhido para ser rei dos Tuathá de Danaan por sua beleza e seus feitos de bravura na primeira batalha de Magh Tuireadh, mas se mostrou avarento e explorador, e por isso veio a ser destronado. Veremos mais adiante no conto sobre o rei Niall como a verdadeira beleza e soberania podem se ocultar dos interesses indignos atrás de um disfarce de feiura.

      Serith segue apontando as características do Cosmos I.E. representado na mitologia: No centro um axis-mundi - um pilar do mundo, representado em duas partes, uma que se ergue do chão às alturas, e outra se estende, igualmente, do chão para o sub-mundo, mais comumente representada por uma árvore, mas em alguns casos, também por montanhas. A estrutura da árvore seria o mundo visível, material, e em torno da árvore há a fonte na qual submergem as raízes, representando o mundo invisível em contato com o visível, o espiritual em harmonia com o material. E a porção invisível segue raízes abaixo ultrapassando a fonte até os confins escuros da terra. 

de Will Worthington

    Depois de citar exemplos desta dinâmica nas culturas germânica, grega e até indo-iraniana, o autor aponta um exemplo da Cultura Celta, em Niall of the 9 Hostages. Niall recebe o reino da Irlanda da própria Soberania da Terra, que se apresenta a ele na forma de uma velha feia que demanda um beijo. Os irmãos de Niall haviam ido até a fonte buscar esta deusa e o seu favor da soberania, mas recusaram-se a beijar a velha. Ao fazê-lo, Niall demonstrou que abraçando a feiura, uma forma de sacrifício, reconhecia todas as faces do poder e dinâmicas da soberania. Ela se apresenta a ele diante de uma fonte que ficaria no centro exato da Irlanda, cercada por 5 freixos, e no centro da fonte ergueria-se um pilar de pedra, após o beijo revela-se uma bela deusa e o torna rei da Irlanda.

      Outros exemplos que encontro de como um pilar se ergue no centro do Cosmos são a Lia Fail, no centro da província de Meath, aonde os reis estabeleciam suas cortes. Lia Fail é o menhir que grita sob os pés daqueles predestinados a serem reis e fora trazida pelos próprios deuses Tuathá de Danaan do Outro-mundo para este. Na mitologia galesa temos no conto Peredur son of Evrawc uma representação do Cosmos e do Caos na árvore que queima por completo de um lado e viceja do outro, à beira de um rio que separa o mundo dos vivos e dos mortos. De volta à Irlanda, a Fonte de Segais é descrita como o centro espiritual da ilha, de onde brotam os 7 rios principais. Também às margens desta fonte está uma árvore, agora uma aveleira, que despeja seus frutos portadores da sabedoria na fonte, tornando-a Segais (a Sábia), e de onde o herói Fion MacCumhall consumiu o Salmão da Sabedoria e tornou-se o homem mais sábio do mundo.

      De volta a Serith: "A árvore tem uma estrutura formada por galhos e raízes. A água, no entanto, não tem estrutura. Ela se molda de acordo com aquilo que a contém. O contentor da água cosmológica é a árvore. A água é o não-manifesto, e a árvore o manifesto. Ou, em outras palavras, a água é o Caos, e a árvore o Cosmos propriamente. A água na fonte alimenta a árvore. O que temos aqui é o reconhecimento de que um Cosmos não renovado cresceria inflexível e frágil. Seria como um cristal, belo mas morto. É o constante influxo de Caos que impede que isto aconteça" Ou seja, é o constante influxo de Caos que faz do Universo algo vivo e eternamente renovável. Morte e caos são perigosos, mas são parte do Universo e da própria Ordem das coisas. Estão ligados de forma intrínseca e dependente, assim como a aveleira se alimenta da água da fonte e retorna seus frutos a esta, num ciclo eterno. 

      O movimento da água faz com que o universo se ponha também em movimento, criando o Tempo, as estações e a diversidade na natureza. É por isso que o Tempo é melhor representado na figura de uma mola e não na de uma roda, como convencionou o Neo-Paganismo. O Tempo e a Natureza são cíclicos, de fato, mas se fossem uma roda seriam eternamente repetitivos, iguais, estagnados e esta não é a realidade. As mudanças e transformações ocorrem na vida, na vida de todos os seres, inclusive na do universo e sua natureza. Um ano nunca é exatamente igual ao anterior, seu cotidiano e a paisagem a sua volta se transformam. Na alegoria da mola que se estende e se achata, temos a possibilidade de reencontro do tempo profano, o nosso, aquele que corre, com o tempo sagrado, o dos Outros-mundos, o da perfeição cósmica, através dos pontos de equilíbrio e desequilíbrio: as celebrações religiosas. 

      (Continua na próxima publicação)

*Ver a obra The Druids de Christian Guyonvarc'h e Françoise Le Roux.
** Ver as teorias do time de arqueólogos do National Museum of Ireland: http://www.museum.ie/Archaeology/Exhibitions/Current-Exhibitions/Kingship-and-Sacrifice

sábado, 7 de janeiro de 2017

O Fogo do Lar - Um Meio de Ascese Feminina

      No início do ano passado, em 22 de Março, escrevi uma postagem curta da página no FB, e fazendo uma revisão no conteúdo, percebi que o texto estava sumindo. Depois de um ano de iniciado o processo que me levou a estas reflexões e à inserção delas na prática da Guarda da Chama de Brigid, e obtendo como resultado um relevante aperfeiçoamento pessoal, resolvi divulgá-la um pouco mais por aqui. Trata-se de uma percepção da mulher dona de casa, dentro do Politeísmo Celta como pilar energético do lar, e pilar afetivo e educativo da família, e de uma forma de desenvolvimento desta concepção através da prática espiritual junto ao fogo, que deixo aqui como proposta. Por ser uma prática tradicionalmente feminina, me dirijo às mulheres no texto, mas acredito ser também viável para homens que, porventura, sejam os cuidadores do lar.

      Na antiguidade céltica o fogo estava no centro da casa, também como um pilar, sustentando-a com seu calor, energia, e suas propriedades de cozer o alimento e ser um ponto de contato entre o lar dos mortais e o dos entes sagrados. Não temos nenhum registro de altares domésticos entre Celtas, motivo pelo qual muitos reconstrucionistas optam por não tê-los. Suponho que isso se dê porque o fogo central por si só, fosse o ponto sagrado do lar, de comunhão com os Outros-mundos, e aonde as ofertas aos deuses, ancestrais e espíritos protetores eram feitas. Na sociedade céltica, o fogo do lar era mantido pela mulher, naturalmente, uma vez que era uma sociedade tradicional e que depositava na figura feminina os cuidados domésticos e com a família. Não à tôa, a divindade que estava ligada ao fogo é feminina. Brigid é uma deusa do fogo das forjas, mas também do fogo do lar. É celebrada no meio do inverno, em Imbolc, quando as provisões se aproximam do fim, quando o calor do fogo é mais necessário e a lactação das ovelhas tem início. Ela é também uma deusa do leite bovino e protetora dos partos, segundo o folclore gaélico. Por tudo isto e ainda por sua ligação com a saúde, Brigid é uma deusa dentre as demais, mais próxima dos papéis tradicionalmente femininos: a maternidade, a nutrição, o calor e alento do lar. Ainda hoje celebra-se esta deusa, inclusive na forma de santa, através da Guarda da Chama de Brigid, costume que chegou aos nossos dias preservado pelo Cristianismo. A guarda de Brigid é feita com maior amplitude nas noites de Imbolc, mas muitos grupos de devotos cristãos e politeístas celtas o fazem periodicamente trocando a chama entre si ao longo do ano.

      A mulher que, como Brigid, mantém o fogo, consolida o lar. Com seus pensamentos, emoções e sentimentos, ela interfere na energia que ali se faz e para toda a família se irradia. Ainda que o fogo não esteja mais no centro da casa, e nem aceso intermitentemente, a energia gerada nele permanece entre as paredes daquela casa e na dona de casa, e a dela nele. É ainda a dona de casa quem passa a maior parte do tempo entre aquelas paredes, é ainda ela quem purifica e sana, quem alimenta e sustenta. Essa noção permanece em nosso subconsciente e nossa cultura. Quando a mulher está com seu campo energético fraco, logo o lar também estará. Quando a mulher está triste ou doente, desmotivada ou desprezada, também a energia do lar estará prejudicada. A energia da mulher se irradia pelos cômodos, pelo alimento, pelo ar, e interfere no bem estar de toda a família. Uma família cuja dona de casa está mal, tende a ir mal. Uma família cuja dona de casa está em equilíbrio, tem mais chances de prosperar.

Dawn of Hope, de Daniel F. Gerhartz.

      É importante que a dona de casa, ou aquele que se ocupa das funções do lar por mais tempo, tenha consciência disso. É preciso policiar os pensamentos, principalmente nas fases conturbadas da vida, quando houverem preocupações ou atritos em excesso. Manter um padrão de pensamentos que gerem emoções ruins acaba por reverberar para fora do corpo e expandir-se por todo o lar. Por isso a mulher do lar precisa ter em mente a sua importância para os demais membros e, devido a esta importância, priorizar o cuidado consigo mesma, para estar sempre forte e apta a se doar aos demais. Na prática muitas de nós acabam fazendo o inverso, colocam todos os outros, em especial as crianças, à sua frente, e acabam se negligenciando ou estando demasiadamente cansadas para dedicar um tempo de qualidade a si mesmas. Isso é perigoso, a negligência para consigo mesma pode gerar desequilíbrios, a mulher começa a ficar irritadiça, deprimida, e daí para acostumar-se a padrões de pensamentos pessimistas e vir a desequilibrar todo o lar, é um passo bem curto.

      Mesmo as pessoas que não guardam a chama de Brigid podem, ao acender o fogo, ao cozer os alimentos, ao limpar o lar, lembrar-se que o estado de espírito delas ficará impresso ali. É preciso cuidar-se sempre, cuidar antes de si mesma, para estar apta a cuidar de toda a família. E quando precisar se auto sacrificar pelos demais, nas fases em que eles necessitarem, estar em condições de fazê-lo sem sucumbir. Ore, acalente e transmita amor ao fogo, tendo em mente que este é uma manifestação do espírito do lar e da família. Sacralize-se, sacralize seu lar e o fogo nele, e celebre-se como a tudo mais o que é sagrado e merece seu apreço. Aos poucos um espírito forte e harmonioso vai se criar e unir todos a sua volta, formando uma família em equilíbrio, influenciada por este espírito de prosperidade que emana de você. A proposta é essa, assumir a responsabilidade e construir a sua volta um pilar energético para as pessoas amadas, tornando-se também este pilar, através destas práticas diárias: sacralização e policiamento dos pensamentos e das emoções durante a limpeza, o cozimento, e ao cuidar de si mesma e guardar a chama de Brigid. Esta é uma forma para mulheres que encontrei de buscar a excelência na vida cotidiana e a ascese espiritual, e que aqui compartilho com os demais politeístas celtas. Mas, um aviso, pode parecer óbvio, mas é bom deixar claro: não se veja tão sagrada quanto uma deusa ou santa, você é mortal, vai fraquejar às vezes, vai cometer erros e ter altos e baixos. Mantenha a humildade, não se exija demais, para não desistir quando as crises vierem. Aguente os períodos de baixa com confiança e valendo-se da energia que já tiver sido gerada, e tenha como meta o aperfeiçoamento constante.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Ecologia do Avesso - A Cruzada dos Defensores de Animais Contra o Sacrifício

      Não é segredo para ninguém que umas das grandes missões do nosso período histórico é a preservação do meio-ambiente, tornarmo-nos uma civilização que consegue conjugar prosperidade com equilíbrio ambiental, ou para usar um termo comum, tornarmo-nos, no atual estágio de desenvolvimento, uma espécie sustentável para este planeta. A perspectiva de catástrofes climáticas e da necessidade de despendio de somas gigantescas por partes dos governos estatais para contornar os efeitos destes, geram grande preocupação, ansiedade e influenciam a mentalidade de nossa época. Temos vivido grandes mudanças de hábitos, como a reciclagem de lixo e a tentativa de gerar cada vez menos gases poluentes na vida privada. Temos visto também o desenvolvimento tecnológico e científico voltado à produção de energias renováveis e menos poluentes, à reciclagem dos mais diversos resíduos. E vemos ainda a entrada no cotidiano de juízos de valores relacionados à consciência ecológica e a uma nova descentralização do homem em relação ao universo. 
       Cada vez mais pessoas contestam a ideologia cristã de que o mundo é um jardim criado para estar à disposição da humanidade. Cada vez mais a ciência tem nos feito enxergar a nós mesmos como animais, assim como quaisquer outros. E cada vez mais olhamos para nossos semelhantes de espécie que não aderem a esta nova mentalidade, como olharíamos para outros animais, nos séculos em que nos julgamos superiores a eles. Cada vez mais pessoas trocam os preceitos cristãos que delinearam por séculos os conceitos de bem e mal, de salvação, por conceitos de sublimação da própria natureza animal e detrimento dos padrões capitalistas de consumo, estendidos como a nova moral. Troca-se a culpa do Pecado Capital, aquele que, na Mitolgoia Cristã nasce com todo ser humano descendente de Eva, pela culpa do consumo, levada cada vez mais ao exagero, evidenciada na culpa pelo consumo alimentício e de alguns confortos modernos. Perdem-se os valores, permanece a culpa e o hábito de  super valorizar-se em relação aos "antiquados". Há uns dois anos atrás li alguém dizer que a nossa geração sofre de culpa mal distribuída, e achei que expressa bem a nossa realidade: vejo pessoas que sentem culpa até por comer um ovo de galinha e precisar usar um absorvente quando menstruam, enquanto na mesma cidade há pessoas que nem sequer separam o lixo orgânico do reciclável, despejam seu esgoto direto no mar em construções irregulares que desmatam áreas ciliares. O que eu vejo pouco é bom-senso e equilíbrio, seja para onde forem, as pessoas tendem a ir pela radicalização.
     Mas isso não me incomoda, desde que me entendo por gente, eu sei que a estupidez é característica intrínseca de 95% da nossa espécie, e nenhum de nós está livre dela. Fora da curva é a lucidez e a capacidade de enxergar com outros pontos de vista. Eu só assisto o desenrolar dos tempos. O que eu não consigo deixar passar, quem me conhece sabe, eu sou chata, é a incoerência. Por exemplo, eu não consigo entender o morador de uma capital litorânea do estado com os piores índices de saneamento básico da região, morador de um bairro litorâneo, a 5 ou 6 quadras da orla que contém 4 ou 5 saídas imundas de esgoto, ratos e baratas, fazer proselitismo vegano distribuindo panfletos salvacionistas e livretos de receitas aos transeuntes, afirmando que isto é ser ecológico. Eu não consigo entender os moradores da antiga capital do país, reputada como a mais violenta, marcada por um apartheid favorecido pela geologia, fazer propaganda de veganismo e campanha contra experiências científicas com uso de ratos de laboratório, quando atrás da montanhas tem milhões de seres humanos vivendo em meio a ratos de esgoto, sem saneamento básico, sem postos de saúde, escolas, policiamento, nem mesmo infra-estrutura de transporte. Ou seja, vivendo pior do que ratos de laboratório. Eu não consigo entender. E eu já desisti de tentar. 
      Ultimamente eu tenho observado a imensa inutilidade e falta de prioridades do MP do Rio Grande do Sul que, tanto fez, que conseguiu levar para apreciação do STF uma possível revogação de uma lei estadual que permite o sacrifício religioso de animais. Neste mesmo estado, em 2004 já havia-se tentado perseguir as religiões de matriz africana com a ajuda dos grupos de defesa dos animais, alegando que sacrifício era mal trato, portanto, deveria ser criminalizado. O projeto, obviamente foi declaro inconstitucional, pois fere o artigo 5º da CF/88 que garante a defesa aos cultos e sus liturgias. A alegação agora é de que a Constituição também protege o meio-ambiente no que tange à extinção de espécies silvestres e animais em geral de mortes cruéis. Gostaria de saber quem foi que sonhou que Religiões Iorubás, Judaísmo e Islamismo sacrificam espécies silvestres? Ou que imolam os animais de forma cruel? O Movimento Gaúcho de Defesa dos Animais afirmou que o caso deve ir ao STF por que os sacrifícios seriam cruéis e "extremamente macabros". Eu pergunto, macabro do ponto de vista de quem? Qual é a definição de macabro aqui? E argumentou também que as tradições de origem africanas ferem a soberania nacional prevista na Constituição. Disse que é uma tradição africana e deve submeter-se às regras brasileiras, "é como se a comunidade espanhola existente no país resolvesse praticar touradas". Não, não é a mesma coisa. As tradições africanas fazem parte da construção nacional do Brasil desde o século XVI, quase 5 séculos antes da promulgação da Constituição Federal de 1988 e do surgimento destes grupos de defesa do animais. As religiões de origem africanas são parte da identidade nacional brasileira. Quem chegou depois é que tem que se adaptar! E o fato de terem origem em outro continente não significa nada, afinal Cristianismo surgiu no Oriente Médio, ainda mais longe do que a África, e Ateísmo surgiu na Europa! Não vejo porque um deve ser visto com estranhamento e e estrangeirismo outros não.

   
       É preciso que antes de se engajar em lutas e defender campanhas guiados pela emoção, as pessoas se instruam melhor a respeito dos alvos de seus ataques, pois eles são tão humanos, ou melhor, são tão animais quanto qualquer um, e portanto também têm sentimentos. Eu não sou especialista em sacrifício animal, ainda que tenha estudado vários autores de História da Religião, mas posso compartilhar aqui algumas formas pelas quais o sacrifício animal é compreendido dentro de diferentes tradições religiosas mundo afora. Para as fés fundamentadas na ideia de reciprocidade e sacralidade da hospitalidade, como é o caso da indo-européias, os deuses são entes imanentes à natureza e, assim, também  aos animais. Como integrantes também deste mundo, eles podem ser recebidos pelos mortais como hóspedes nas ocasiões religiosas, e como visitantes ilustres, devem ser bem recebidos. Para tanto, a melhor refeição possível é preparada, e animais a eles vinculados, ou tidos como favoritos, são mortos de forma sacrificial. A carne destes animais é dividida, uma porção para consumo da comunidade, e outra para consumo dos entes sobrenaturais. Existem ainda os chamados Sacrifícios Apotropaicos, ainda mais comuns nas mitologias do Oriente Médio, e nas quais acredita-se que os animais não morrem de fato, mas passam a uma outra forma de vida nos Outros Mundos, vindo a compor os rebanhos dos deuses. Nestes casos, os sacrifícios são presentes dados pelos mortais aos entes sobrenaturais como forma de apaziguamento ou de conseguir favores. Em ambos os casos, o sacrifício animal é parte essencial e fundamental na forma como a comunidade mortal se relaciona com os entes sobrenaturais, extirpar estas práticas deforma as tradições religiosas em seu âmago.
      Há ainda uma terceira crença em torno de algumas práticas sacrificiais. Tanto para i.e.s quanto para orientais, existem crenças de que o universo se criou do sacrifício de alguma divindade, e para ser continuamente recriado e mantido em equilíbrio, ou seja, para que o universo não venha a sucumbir e a ordem cósmica tanto natural quanto social prevaleçam, de tempos em tempos é preciso sacrificar determinados animais a cuja existência a divindade está vinculada. Neste caso, a própria existência do universo, e os pilares sociais e morais, toda a cultura em torno destas tradições, está vinculada ao sacrifício. Se o sacrifício deixasse de existir aqui, o próprio universo sucumbiria. Se o sacrifício nestas religiões for proibido, as próprias religiões sucumbirão, porque o seu cerne terá sido destruído. Em todos estes 3 casos, os animais sacrificados são, quase sempre, animais domesticados, e não silvestres. No caso dos Celtas da Antiguidade, aonde o sacrifício animal existia, não conheço nenhum registro de sacrifício de animal silvestre, apenas de gado, cavalos, suínos, caprinos, cães e gatos. Igualmente nas Religiões Iorubás e nas Abraãmicas, apenas animais de corte são sacrificados. A proibição destas práticas em nada contribui para a preservação do meio ambiente, como alegam agora os seus perseguidores, contribuem  apenas para a desconstrução de tradições étnicas e religiosas. Só atende aos interesses da intolerância religiosa e ideológica multi-culturalista. Ainda que o caso seja riograndense, uma súmula editada pelo STF vincula a todos os demais tribunais do país, de forma que abri precedente para a proibição do sacrifício em todo o território nacional. Por isso convido os leitores a levarem a questão a sério e se solidarizem com as religiões de matriz africanas. Se não por justiça ou por empatia uma vez que somos também uma religião minoritária e que já praticou o sacrifício animal, então tenham em mente o fato óbvio de que a próxima cruzada dos defensores de animais será contra o consumo alimentício de animais, e quaisquer outras tradições e identidades étnicas e regionais que não lhes convenham, como foi, a pouco, o caso da vaquejada no Nordeste do país

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Cavalheirismo não é Machismo - pt. 3

Como vimos até agora, a Cavalaria é obra dos homens. O Cavalheirismo é obra das mulheres. Ambos preservam o cerne da identidade céltica do oeste europeu, juntamente com as adições do período medieval e as cristãs. Mas o importante é que esta criação que as mulheres influentes da Idade Média nos legaram preservam junto com a identidade ocidental as normas de conduta que impedem os homens de serem tirânicos para com elas, e ao invés disso, os inspira a serem honrados e fazerem a justiça não apenas em campo de batalha, mas em todo o convívio social. Um fato biológico que não pode ser alterado, é que os corpos masculinos são mais fortes que os corpos femininos. Por isso, embora as mulheres tenham todas as ferramentas intelectuais para influenciar a sociedade, que aponto neste texto, em tempos de conflito ou crise, a sobrevivência delas nunca vai depender apenas de si mesmas, mas do caráter dos homens que elas têm como aliados. E somos uma espécie social: aliados são essenciais, até mesmo para os homens, cuja sobrevivência depende do caráter de outros homens que eles têm como aliados. Desconectar os seres humanos e os compromissos que eles têm uns para com os outros, não é solução, é sabotagem. 

É evidente que nem todo homem é um cavalheiro, ainda que seja gentil. Ao longo de toda a história da humanidade sempre houve homens que aproveitaram sua força física para submeter os mais fracos e as mulheres a suas vontades. Na Idade Média não foi diferente, o já citado William I, conquistador da Inglaterra seqüestrou e casou-se com Matilda de Flanders. A princípio ele a pediu em casamento, ela fez a descortesia de rejeitá-lo afirmando que era muito bem nascida para se casar com um bastardo. Ele a seqüestrou. O pai de Matilda até tentou reavê-la, ofereceu resgate, ameaçou com guerra, mas ela recusou e quis permanecer casada. Aparentemente eram ótimos cúmplices: uniram seus exércitos e juntos arquitetaram a conquista da Inglaterra. A última descendente de Celtas a governar a Bretanha francesa foi Anna Vreizh, Duquesa da Bretanha. Para evitar que seu território fosse anexado pelo rei da França ela se casou com Maximilliano de Habsbourg, imperador do Sacro Império Romano-Germânico. O então rei da França, Carlos VIII, atacou sua fortificação em Rennes, seqüestrou-a e obrigou a casar-se com ele, tornando-a rainha da França em 1492. Fatos como estes inspiraram os romances do séc. XVIII e XIX sobre damas medievais prisioneiras em torres, passivamente necessitadas de um herói que as salvasse. Mas este estereótipo está longe de ser a regra.

O Cavalheirismo era a característica que distinguia os Cavaleiros injustos dos justos, os que acreditavam que sua força deveria servir para o bem, e que não tinham direito de impô-la sobre as mulheres e os mais fracos. Não precisou ser criado entre Celtas, pois as mulheres antes da romanização e cristianização tinham recursos financeiros e legais para defenderem sua vontade tanto quanto os homens em tempos de paz. Tinham, inclusive, recursos legais para irem à guerra dividir esta responsabilidade com os homens, se preciso fosse. E os homens, estavam imersos neste paradigma de respeito à figura feminina. Na Lusitânia e Galícia eram as mulheres quem herdavam as terras, e não os homens. Na Irlanda e boa parte da Britânia, elas tinham direito à herança e ao divórcio, e a conservar suas posses e filhos após este. Mesmo na Idade Média, em locais aonde a herança Celta permanecia mais forte, havia leis que asseguravam os direitos das mulheres sobre suas posses e a escolha de seus consortes. No País de Gales a Lei de Hywell Dda afirmava que a mulher tinha o direito de escolher com quem se casar, e se a família tentasse impedir, era direito dela fugir para se casar. O Cavalheirismo foi a forma como esta herança céltica de autonomia feminina pôde sobreviver na nossa cultura.

No texto que aqui critico, o autor afirma que Cavalheirismo é Machismo porque as mesuras e gentilezas com que os homens tratam as mulheres destinam-se apenas a conseguir manter relações sexuais com elas. Seu argumento origina-se de uma disputa por quem vai pagar a conta do jantar e do motel, afirmando que se os homens pagam a conta, é para poder manter relações sexuais, assim comprando as mulheres, e que elas sabem e aceitam isto, sendo, portanto, um Machismo mutuamente instituído. Assim, sugere que as gentilezas se encerrem e que as mulheres paguem também as contas, para evidenciar que não estão sendo compradas, mas mantendo sua independência e a relação sexual por sua livre escolha.

O argumento é desde o início falho, pois não aborda uma relação cavalheiresca, muito menos de amor, afinal exclui o pudor, a preservação e, principalmente, exclui a premissa das virtudes para ser merecedor do amor. Se um homem leva uma mulher para jantar esperando manter relação sexual com ela na mesma noite, sem amor, ele não é um cavalheiro. Se a mulher sai para o primeiro encontro com um homem e mantém relação sexual com ele, sem amor (dividam eles a conta ou não), ela não é uma dama. Nem este homem tem motivos para esperar merecer uma dama como companheira, nem esta mulher tem motivos para esperar merecer um cavalheiro como companheiro.

Não é nada contra sexo, muito menos é sobre sexo apenas após o matrimônio. O Tratado do Amor Cortês e a literatura Trouvères não pregam a castidade, ao contrário. As prosas de Tristão e Isolda têm várias passagens de encontros nas quais fica implícita a relação sexual. Este padrão se repete em várias outras obras, como Aucassin e Nicolete, ou as que abordam os personagens Guinevere e Lancelot. Mesmo Capellanus, um clérigo cristão, diz que o amor se concretiza quando o amante pode finalmente estreitar a mulher amada em seus braços (a forma como ele pode se referir a sexo). É nisso que os Trouvères, escritores nortenhos influenciados pela Mitologia Celta, diferem dos Troubadours, escritores sulistas. Os Trouvères conservam a relação sexual em seu texto e suas idéias, enquanto que os Troubadours relegam aos amantes a impossibilidade da concretização do amor, do ato carnal, sendo por isso enredos trágicos. Nos Trouvères, os temas célticos aparecem na fuga, no amor secreto, na escolha própria, por vezes no adultério, os amantes desafiam tudo e realizam sua paixão, a tristeza só está marcada quando a morte de um ocorre, levando também à morte do outro, fiel até mesmo na morte.


Troubadours
O autor do texto Cavalheirismo é Machismo aponta como referências de seu texto a debates em listas de discussão feministas. Bem, eu não sei quem estas pessoas são, por isso não me sinto confortável em criticá-las, mas este comportamento que descrevem e rejeitam não é Cavalheirismo. É apenas seu próprio comportamento moderno e promíscuo, e não a tradição ocidental. Se estes homens mantiveram as gentilezas mas só pensam nas mulheres para sexo, e elas resolveram fazer o mesmo em relação a eles, é a si mesmos que precisam questionar e transformar, não ao Cavalheirismo, que como se vê, não entendem, nem sabem o que é.

Hoje em dia existem contraceptivos que impedem a disseminação de DSTs, e a gravidez indesejada, e mesmo assim há epidemias como a do HPV e HIV. Contudo, até a década de 60 do século passado, estes métodos não existiam e o que evitava, ou melhor, freava a disseminação da sífilis, gonorréia, e outras DSTs era a responsabilidade e a fidelidade. Irresponsáveis e promíscuos sempre existiram, e as DSTs sempre circularam através deles, a diferença hoje em dia é que isto que atualmente chamam de Feminismo, convencionou fingir que apenas os homens eram canalhas e promíscuos, e que uma vez “liberadas” as mulheres também podem sê-lo. A promiscuidade tornou-se um objetivo universal a ser alcançado em nome da igualdade de gêneros. Quem pensa dessa maneira não percebe que só está expandindo mais um comportamento abusivo no qual um ser humano trata a outro como objeto para obter prazer, e, disseminando doenças.

Mas não, promiscuidade não era regra entre os homens, ainda que tenha sido muito mais tolerada entre eles pelo fato de não carregarem filhos no ventre. E não é propagandeando a promiscuidade generalizada, denegrindo o comprometimento, e, destruindo instituições milenares que o Feminismo vai conseguir dar autonomia às mulheres. Tudo o que falei deixa claro que as mulheres do ocidente europeu na Idade Antiga e em certa medida na Idade Média não precisaram ser promíscuas, nem feministas, para serem independentes em suas escolhas amorosas, precisaram apenas de independência econômica.

O Feminismo teve seu papel de imensa importância no século XIX e XX ao romper com os padrões de extrema submissão e exclusão da vida jurídica, econômica e política a que as mulheres foram progressivamente submetidas a partir da Idade Média, e com o padrão de vulnerabilidade e incapacidade que o século XIX lhes atribuiu. Padrão este que reproduziu na figura da princesa medieval prisioneira de uma torre, e também na historiografia, criando uma visão errônea das mulheres antigas e medievas. Por isso fariam melhor os atuais feministas em estudar mais de história e conhecer melhor sua própria cultura antes de difamá-la e descartá-la. Se dedicassem-se mais a ler e menos a ‘tagarelar’ em redes sociais e listas de discussão, provavelmente concentrariam seus esforços de forma mais sábia e eficiente.

Por fim, não é o Cavalheirismo que ensina os homens a comprar mulheres como objetos para obter prazer, são as próprias mulheres promíscuas, que se acreditam liberadas, ou as preguiçosas de adquirir segurança financeira por seus próprios méritos, quem ensinam isso. O Cavalheirismo é o que as mulheres fortes e conscientes têm ensinado a seus filhos por quase mil anos, muito antes do Feminismo. A propaganda feminista atual diz “Ensine seu filho a não estuprar”, como se as pessoas tivessem andado por aí ensinando uma coisa dessas. Creio que algumas delas não ensinem seus filhos a cortejar, respeitar os mais fracos e um ‘não’ vindo de uma mulher, a conformar-se com a rejeição. O Cavalheirismo, ao contrário, ensina o homem a ser gentil, respeitar as mulheres e os mais fracos e defendê-los, se preciso. Ensina a ser um sujeito honrado, paciente, e a ter retidão. O Cavalheirismo existe no interesse das mulheres e não pode deixar de existir, deve sim, ser preservado.


Bibliografia usada e sugerida:

BARROS, Maria Nazareth A. de. Tristão & Isolda: O mito da paixão / Maria Nazareth Alvim de Barros - São Paulo ; 1996.

ELLIS, Peter Berresford. Celtic Women: Women in Celtic Society and Literature. 1996.


LARANJEIRA, Adriano Gonçalves. Representações da mulher no Tratado do Amor Cortês de André Capelão. UESB. http://www.uesb.br/anpuhba/artigos/anpuh_III/adriano_goncalves.pdf

La belle dame sans merci, de Frank Bernard Dicksee, 1901.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Cavalheirismo não é Machismo - pt. 2

Esta segunda parte do artigo 'Cavalheirismo não é Machismo' ilustra para o leitor a origem céltica de boa parte destas virtudes cavalheirescas, falemos então de como a literatura do amor-cortês está imbuída dos temas da Mitologia Celta. O Ciclo do Ulster e o Ciclo Feniano são aqueles pertencentes à literatura vernacular irlandesa que mais influenciaram aos Trouvères. No primeiro encontram-se contos oriundos da Idade do Ferro e que giram em torno da corte do Rei Conchonbarr e do maior herói gaélico, Cúchullain. No segundo, os contos em torno da confraria guerreira liderada por Finn McCull. A Me. Maria Nazareth Alvim de Barros exemplifica em especial o conto Os Filhos de Uisnech, do Ciclo do Ulster, e, A perseguição de Diarmuid e Greinne, do Ciclo Feniano, como os mais bem explícitos exemplos da temática céltica em torno das virtudes guerreiras e amorosas implícitas na literatura dos Trouvères, e às obras de Tristão e Isolda, pertencente ao amálgama galês do Ciclo Arturiano, atribui a apoteose desta categoria literária.

No conto Os Filhos de Uisnech, vemos como o vicioso rei Conchonbarr ordena o enclausuramento de uma recém nascida profetizada para ser a mulher mais bela da Irlanda e causa da morte de muitos guerreiros, Deridre, a fim de que esta venha a ser sua consorte. Soberana como se esperava que fosse uma mulher céltica da Idade do Ferro, Deirdre decide seu próprio destino escolhendo o mais valoroso e honrado guerreiro de sua geração, Naoise filho de Uisnech, e põe sobre ele uma géis, encanto que impõe um juramento, uma obrigação, através do qual ele não pode esquivar-se de seu amor. Sabendo da profecia e prevendo a ira de Conchonbarr, os amantes exilam-se na Escócia, junto com os irmãos e demais companheiros de guerra de Naoise que recusam-se a abandoná-lo. É o então campeão do Rei Conchonbarr, Fergus MacRóich, quem parlamenta o regresso e perdão dos amantes e seu grupo, prometendo-lhes salvo conduto e proteção. Mas o rei é falso e ardiloso, ele finge concordar, no entanto, quando Naoise, Deirdre e seus amigos aportam na Irlanda, ele usa de um ardil para afastar Fergus e seus guerreiros. Por conta de outros juramentos que recaem sobre Fergus, ele é obrigado a ausentar-se e não pode ir ao socorro dos amigos. Conchonbarr leva seu exército e ataca os recém chegados. O texto segue com as proezas de Naoise e seus companheiros resistindo ao exército do rei, mas sucumbindo ao final. Deirdre é feita prisioneira por Conchonbarr e após um ano de sofrimento e fidelidade à memória de Naoise, tira a própria vida.

Os druidas do rei Conchonbarr lançam sobre Naoise e seus companheiros as ondas do mar.
Deirdre e Naoise, de A.C. Michaels.
O Lamento de Deirdre, de John Duncan.

Ainda no Ciclo do Ulster, o conto intitulado A corte de Emer, mostra Cúchullain tentando conquistar a mão de Emer. O herói faz sua aproximação quando ela está ensinando suas virtudes a 30 outras mulheres, e expõe seu desejo de tê-la como esposa, elogia seus seios comparando-os a uma campina onde gostaria de repousar. Emer então impõe suas condições para aceitá-lo: “Nenhum homem repousará aqui, a menos que possa saltar ao longo de três muros, matar três grupos de nove homens com um só golpe, deixando um homem em cada grupo vivo, e matar cem homens em cada um dos vaus daqui até Emain Macha”. Cuchullain aceita e cumpre as tarefas e Emer concorda em casar-se com ele. Ele parte para a Escócia para aprimorar suas habilidades guerreiras e o romance entre os dois permanece em segredo até o seu retorno. Mais tarde Cúchullain se tornará o maior herói da Irlanda por defender sozinho seu país, o Ulster, da invasão dos exércitos unidos de todas as outras regiões da Irlanda.

Já no conto A Perseguição a Diarmuid e Greinne, vemos o grande chefe guerreiro Finn McCull arranjar seu casamento com a princesa Greinne. Ora, o conto nos diz que Finn já era idoso, e outros textos do ciclo mostram que ele não havia sido fiel ao coração das várias mulheres com quem se uniu e teve filhos. Embora seja um grande guerreiro e sábio vidente, o ciclo coloca neste conto uma punição para Finn. Ao receber no salão a Finn e sua confraria, e ver sua idade avançada, Greinne desiste de se casar com ele. Ela interroga seu druida sobre a identidade e os feitos de bravura dos demais integrantes da Fianna para escolher outro parceiro para si. Então, serve uma poção mágica que põe a todos em sono profundo, e se aproxima dos dois guerreiros da confraria com quem gostaria de se casar. Greinne faz a corte a Oisin, filho de Finn, mas por estar sob outro juramento, ele não pode desposá-la. Ela, então, faz a corte a Diarmuid, mas ele recusa, pois não quer trair a confiança de Finn. A dama então põe sobre ele uma géis, e Diarmuid se vê compelido a fugir com ela enquanto todos dormem. Ao acordar, Finn fica irado, e ainda que Oisin seja testemunha de que Diarmuid não o traiu, Finn quer vingar-se.

O conto se segue com a perseguição aos amantes e as proezas de Diarmuid, auxiliado por Oengus Og, deus do amor, para enfrentar Finn e sua confraria. Os guerreiros de Finn o seguem mas passam a dividir-se em sua lealdade ao líder, alguns deles consideram injusta a perseguição a Diarmuid e a Greinne. Com a interferência diplomática do deus Oengus, Finn aceita a paz com aos amantes, mas só para no futuro armar uma cilada contra Diarmuid. Greinne teria, segundo algumas versões, morrido de tristeza junto a Diarmuid, e o enredo deste conto teria dado ensejo ao fim da confraria.

De volta à literatura Trouvères, em Tristão e Isolda, vemos novamente um guerreiro valoroso e leal apaixonar-se pela mulher prometida ao seu líder, o Rei Marc. Tristão é o matador de dragões e gigantes, sobrinho do Rei Marc (ambos vassalos do Rei Arthur), Isolda é a princesa curandeira da Irlanda. Tristão vai para a Irlanda com a missão de matar um dragão e com este feito conseguir a mão da princesa para o tio. Ele logra seu feito, mas se fere no combate, Isolda o cura e os dois se apaixonam. Mas para cumprir com sua palavra, Tristão teve de levar a mão de Isolda para seu tio, que ignora a paixão entre eles. Ao tomar por engano uma poção mágica, Tristão e Isolda ficam para sempre ligados, incapazes de entregar seus corações a outros. O paradoxo está na fidelidade e lealdade que os amantes têm um para com o outro, ainda que vivam em adultério, pois Isolda é obrigada a casar-se com Marc. O adultério segue até que os amantes são descobertos, o Rei Marc exila o sobrinho e como punição, entrega a esposa aos leprosos. Tristão consegue salvá-la e, exilados, passam a viver na floresta da caça e da coleta, uma vida simples e feliz, mas eles lamentam por terem quebrado sua palavra para com Marc, que era um bom homem e um bom rei.

Tristão e Isolda de John William Waterhouse.

Certo dia o Rei Marc descobre o esconderijo dos amantes e os vê ainda dormindo, mas naquela noite, cansados, eles não dormiam juntos, e Tristão colocara sua espada entre seu corpo e o de Isolda. Ao ver a cena, Marc crê que os dois eram inocentes e que havia cometido uma injustiça contra eles, e os convida a voltar para a corte. Tristão sente-se dividido entre a lealdade ao rei e o amor a Isolda, mas a convence a voltar. Ele entrega Isolda a Marc e exila-se na Bretanha francesa. A infelicidade reinicia-se: Isolda é infeliz porque é obrigada a deitar-se com Marc, Tristão também o é porque padece de ciúmes. Num momento de desespero ele aceita a corte de uma mulher de mesmo nome que sua amada, Isolda das Mãos Brancas, princesa da Bretanha francesa, e casa-se com ela. Mas após a cerimônia ele cai em si e se arrepende, querendo poupar a virtude da esposa que está prestes a entregar-se a um homem que não pode amá-la. Ele mente, diz que sofre de uma doença e por isso não pode consumar o casamento. Ela acredita, e se torna também uma infeliz, mas ao descobrir a mentira de Tristão se enfurece e o envenena. Nada é capaz de curar Tristão, mas seu companheiro de armas, Kaherdin, navega até Tintagel e relata o sucedido a Isolda. Ela navega com ele para a Bretanha levando seus elixires para tentar salvar o amante, mas o clima os atrasa e eles não conseguem chegar a tempo. Vendo Tristão morto, Isolda falece ao seu lado. O Rei Marc mandou sepultá-los juntos: sobre Isolda plantou uma roseira, e sobre Tristão, uma vinha. As duas plantas se enroscaram e cresceram tão emaranhadas que nada podia separá-las.

Todos estes contos de origem celta legaram o padrão disseminado pelo amor-cortês. É pelas virtudes guerreiras que um homem merece ser amado: ele deve ser valente, leal, proteger a amada e zelar pela segurança dos mais fracos. Ela deve cultivar virtudes e talentos, e escolher um homem por seu merecimento. A conquista é árdua para o homem, ele deve louvá-la, respeitá-la, esperar, e lutar por ela. Uma vez conquistado o amor, a fidelidade entre eles deve estar acima de tudo, mesmo das convenções sociais e do poder estabelecido. Assim como na Mitologia Celta, os cavaleiros devem ser tão fiéis a sua amada quanto são leais a seu suserano e companheiros de armas. Assim como na Mitologia Celta, as heroínas se rebelam contra imposições sociais e escolhem a quem entregar seu amor, e o fazem em virtude dos feitos dos homens. Ainda como na Mitologia Celta, um encantamento (geis ou poção) representa a magia inquebrantável do amor e do juramento entre os amantes. Tanto o herói celta, quanto o cavaleiro das Trouvères eram liderados no amor pela mulher, de certa forma, eram seus vassalos. Nas palavras de Barros:

Iluminura do Codex Mannesse.
Considerado  mais importante obra alemã
da Idade Média.
“...o amor era visto como o próprio destino, ou seja, a busca maior do homem que, glorioso pelos feitos heróicos, se completava pela descoberta amorosa. O amor cortês glorificava a figura feminina, transformava-a no bem supremo, mas fazia do homem um vassalo [...] A tudo isso se associava a noção de mesura, que se opunha à desmesura, a qual caracterizava não só o herói trágico quanto o herói celta.”

E como conclui Adriano Gonçalves Laranjeira: “Os jovens cavaleiros procuravam, pois, conseguir o agrado da dama amada, na mais absoluta discrição. Em sua homenagem venciam torneios, compunham versos, eram caridosos com os necessitados. No jogo cortês elas são o “senhor”, e eles, os vassalos, aqueles que prestam juras de fidelidade.”


E “a mulher cumpria, assim, no convívio social da corte, o papel de educadora dos jovens cavaleiros. O Tratado do Amor Cortês, quando se propõe a normatizar as práticas do amor cortês, coloca as mulheres em lugar de destaque, no papel das condutoras das ações masculinas".

Na próxima e última parte deste artigo, uma crítica à campanha 'Cavalheirismo é Machismo', e uma defesa da manutenção e resgate do Cavalheirismo e das virtudes guerreiras.